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DEPOIMENTOS: Mulheres em situação de abortamento

"Fiquei grávida do meu padrasto e não pude fazer o aborto. Aos 13 anos fui estuprada pelo meu padastro quando a mãe já tinha ido para o trabalho e os irmãos para a escola. Como só ia para a escola à tarde, ficava dormindo até um pouco mais tarde, quando o padrasto que também saía bem cedo, voltou. Me segurou com força na cama, me amarrou e me violentou." - Desesperada pediu socorro, mas não havia ninguém para ajudá-la - "Era virgem e senti muita dor quando ele me penetrou. Fiquei com muito nojo dele. Por várias vezes tive vontade de matá-lo. Me mudei para a casa da minha tia, com a desculpa de ajudar nos serviços domésticos e também não queria criar problemas para minha mãe e ele, além do que, tinha me ameaçado, e disse que poderia até matar minha mãe se eu contasse. Visitava minha família apenas nos fins de semana quando sabia que ele não estava em casa..."

"Não conversava com ninguém, vivia chorando, minha pressão subiu, comecei a engordar e minha tia desconfiou que alguma coisa estava errada, até que um dia, ela me pressionou e eu contei tudo, nem tanto por mim, mas pela minha irmã menor, que já estava sendo olhada de maneira esquisita por ele. Minha mãe entrou em pânico, fomos à Delegacia da Mulher fazer o Boletim de Ocorrência e em seguida ao Hospital por informação da Delegacia, mas depois do exame médico foi constatada que minha gravidez já passara de 17 semanas e estava muito avançada para fazer o aborto. Senti o horror do mundo naquele momento. Nunca tinha ficado com nenhum garoto, nem me apaixonado e estava grávida do meu padrasto. Tinha que carregar aquilo dentro de mim. Olhava para o meu corpo e não me reconhecia. Não sei como aguentei aquilo por nove meses. Senti um alívio enorme quando ele nasceu. Nunca o vi. Só sei que era um menino e foi doado ao hospital depois do parto. Hoje não penso muito no futuro, só queria esquecer tudo isso..."

Uma senhora de 38 anos, mãe de dois filhos foi violentada quando se dirigia ao trabalho de manhã cedo, conta conforme depoimento prestado à Veja (13/12/95)

Gravidez é vida e aquilo era a morte.. Eu olhava para mim e me via suja, tomava muito banho mas sempre saia com os olhos vermelhos por que aproveitava para chorar.. Lembro que contei os minutos para que chegasse o dia seguinte (quando iria à Delegacia da Mulher). Eu sentia aquela coisa crescendo dentro de mim, como se fosse uma bola de neve. "Meu Deus, eu pensava, essa coisa está violentando o meu corpo, esta me matando". Informaram que eu devia ir ao Hospital de Jabaquara e contar a minha história para a assistente social de lá. Fui no mesmo dia, já com a malinha de roupas e escova de dentes, achando que podiam resolver tudo na mesma hora."

Ela recebeu a assistência devida e a tempo, tendo sido tratada com aspiração elétrica, interrompendo uma gravidez que ela nunca reconhecera. Nunca se arrependeu.

Disse ainda.."ouvi essa expressão (assassina) numa entrevista. Diziam que o aborto era tirar uma vida. Mesmo que alguém venha me falar algo um dia, vou estar sempre de queixo erguido. O ato de doar é uma coisa do bem. Como eu poderia dar para alguém uma coisa violenta, nascida do mal?"


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