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Editorial Em 2005 houve significativos avanços em relação aos direitos humanos e a saúde reprodutiva das mulheres brasileiras, tais como a apresentação do projeto de lei sobre a legalização do aborto e a apresentação do projeto de lei sobre a violência doméstica e familiar; além disso foram realizados eventos no país ampliando a discussão sobre a criminalização do aborto e o seu impacto negativo para a saúde e a vida das mulheres, na perspectiva dos direitos humanos. Nesse ano de 2006, esperamos continuar participando e divulgando as iniciativas que ampliam o acesso das mulheres, jovens e adolescentes a serviços de qualidade para o exercício de seus direitos humanos relacionados a auto-determinação sexual. Nesse sentido, apresentamos dados de duas pesquisas realizadas por Ipas, a saber: "Mortalidade materna: A situação da atenção ao aborto nas unidades sanitárias do setor público em Moçambique" (Moçambique, África) e "Vozes da Geração Digital" (Rio de Janeiro, Brasil). Esse último mostra os dados finais da pesquisa "Jovens na Rede" desenvolvidas com adolescentes de escolas públicas do Rio de Janeiro, entre os anos de 2003-2005. Os dados refletem o perfil da amostra dos adolescentes cariocas quando questionados por meio da Internet sobre o tema saúde sexual e reprodutiva. Já o projeto em Moçambique foi realizado por Ipas em parceria com o Ministério da Saúde de Moçambique; que juntos conduziram uma ampla avaliação dos serviços quanto a atenção ao abortamento em 45 unidades sanitárias do setor público, ao longo de 2002 e 2003. Esse projeto objetivou apresentar recomendações de medidas que favoreçam atender as necessidades de saúde reprodutiva das mulheres de Moçambique. Em relação ao tema da reforma legal, aborto inseguro e direitos humanos no Brasil, apresentamos nessa edição, artigo sobre os principais pontos debatidos durante o seminário internacional Reforma Legal para Avançar na Proteção dos Direitos Sexuais e Reprodutivos no Brasil realizado por Ipas Brasil em parceria com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e com o apoio da Fundação Ford em Brasília no dia 02 de agosto de 2005 : "Promovendo o debate sobre a reforma legal no Brasil: possibilidades e desafios atuais à legalização do aborto". Nas edições subsequentes dessa Revista, estaremos apresentando artigos referentes aos seminários sobre a "Reforma Legal para Avançar na Proteção dos Direitos Sexuais e Reprodutivos no Brasil" realizados em Porto Alegre (outubro de 2005) e em Belém (dezembro de 2005). Na seção de "Ipas Notícias" apresentamos uma nota de apoio de Ipas Brasil; além de clippings de notícias relacionadas ao Projeto de Lei 1135/91 que prevê a descriminalização do aborto no país e está com votação prevista para o final do mês de fevereiro de 2006. Em "Reflexões e Opiniões" contamos com o texto de Contardo Calligaris: "O aborto dos outros" que comenta a pesquisa sobre a reação dos ginecologistas-obstetras brasileiros à gravidez não desejada. Esse texto apresentado originalmente na Folha de São Paulo caderno "Ilustrada", 12-01-06, autorizado para publicação nessa Revista. Já na área de saúde, apresentamos o relatório da Dra. Alice Salgueiro do Nascimento Marinho; Psicóloga, Doutora em Saúde da Criança e da Mulher pelo Instituto Fernandes Figueira /FIOCRUZ e leitora desta Revista Eletrônica; que muito generosamente contribui aqui com seu texto: "Um retrato da gravidez de risco genético a partir de Frida Kahlo". Para aqueles que queiram oferecer sua contribuição para a publicação de algum artigo, eventos ou cursos a serem realizados e relacionados com nossos objetivos (saúde sexual e reprodutiva da mulher), pedimos que nos contatem através do e-mail: revista@ipas.org.br. Muito
obrigada |
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| Nesta
Edição BRASIL
EM FOCO DIREITOS
SEXUAIS E REPRODUTIVOS EM DESTAQUE SAÚDE
SEXUAL E REPRODUTIVA REFLEXÕES
E OPINIÕES Ipas
Notícias |
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Curso de
Especialização em Saúde da Mulher no Climatério Curso de
Formação
de Conselheiros(as) em Direitos Humanos Encontro
Nacional de Núcleos e Grupos de Pesquisa sobre Relações
de Gênero, Mulheres e Feminismos CURSO DE
CAPACITAÇÃO EM APA e AMIU (Aspiração
Manual Intra-Uterina) CURSO DE
CAPACITAÇÃO
EM APA e AMIU (Aspiração Manual Intra-Uterina) CURSO DE
CAPACITAÇÃO
EM APA e AMIU (Aspiração Manual Intra-Uterina) CURSO DE
CAPACITAÇÃO
EM APA e AMIU (Aspiração Manual Intra-Uterina) XIII Congresso
Latino Americano de SEXOLOGIA E EDUCAÇÃO
SEXUAL
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Nota de Apoio ao Projeto de Lei 1135/91 de Ipas Brasil A prática do aborto em condições inseguras está diretamente relacionada à alta incidência de mortes maternas no Brasil, pois o aborto é considerado uma das principais causas de mortalidade materna. As estatísticas de outros países em desenvolvimento vêm demonstrando que a mudança de leis restritivas sobre o aborto podem ter impacto direto na redução da morbi-mortalidade devido ao aborto inseguro. No Brasil prevalecem disparidades sócio-econômicas, culturais e regionais no acesso das mulheres a meios seguros para interrupção da gravidez indesejada diante da ilegalidade do aborto. Mulheres com melhores condições financeiras, nos grandes centros urbanos, têm acesso às clínicas de aborto particulares. Já as mulheres com baixa escolaridade, baixas condições sócio-econômicas, recorrem aos métodos inseguros para o término de suas gravidezes. Segundo dados do SUS, nos últimos três anos, a média dos procedimentos de esvaziamento uterino pós-aborto por curetagem e por aspiração manual intra-uterina (AMIU) atingiu 245.786,33 (DataSUS, 2004). Nos últimos anos, Ipas Brasil vem trabalhando pela redução da mortalidade materna por aborto e exercício dos direitos sexuais e reprodutivos pelas mulheres. Por isso apoiamos o PL 1135/91 por acreditarmos que nenhuma mulher deva ser criminalizada por um procedimento em saúde que ela necessita pelo fato de ser mulher. NOTÍCIAS RELACIONADAS: Governo deixa para 2006 votação da lei do aborto 8/12/2005 - Estado de São Paulo O governo desistiu de votar neste
ano o projeto de lei que descrimina o aborto, diante da possibilidade de
a proposta ser rejeitada na comissão de
Seguridade Social da Câmara. NOTÍCIAS RELACIONADAS: Seguridade adia votação do projeto sobre aborto 07/12 Da Agência Câmara A Comissão de Seguridade Social aprovou por 16 a 15, em reunião encerrada há pouco, proposta do deputado Sérgio Guerra de adiar a votação do projeto que amplia as possibilides de aborto (PL 1135/91). O projeto volta à pauta após duas sessões do Plenário. Alguns deputados disseram que vão recorrer do resultado à presidência da comissão. Guerra quer tentar negociar mudanças no relatório da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ). (...) Isso porque, segundo ele (Sérgio Guerra), a deputada retira artigos importantes do Código Penal, como o que trata da responsabilidades das clínicas. Ele é contra a legalização das clínicas de aborto. NOTÍCIAS RELACIONADAS "Autoritarismo religioso" marca debate sobre aborto, avalia coordenadora de ONG Juliana Cézar Nunes Repórter da Agência Brasil 06/12/2005 Brasília – Representantes de associações de mulheres e religiosos foram maioria hoje no plenário da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. Em minoria, organizações em defesa da livre escolha feminina e contra o mercado clandestino de aborto distribuíram textos com explicações sobre a necessidade de evitar mortes de mulheres em cirurgias feitas na ilegalidade. Para a coordenadora da organização não-governamental (ONG) paulista Comissão de Cidadania e Reprodução, Tânia Lago, o debate sobre o projeto de lei está sendo marcado pelo "autoritarismo religioso". "Os deputados se sentem pressionados pelos grupos religiosos, principalmente a igreja católica. Isso está muito claro depois de vários dias de conversa que tivemos com eles", conta Tânia. "O debate não está se dando em uma ambiente de democracia, mas autoritário. O princípio do Estado laico não está sendo respeitado." O presidente da Comissão de Seguridade Social, deputado Benedito Dias (PP-AP), acredita que o projeto escrito baseado na relatoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) será rejeitado. "A maioria dos membros da comissão é contra a descriminalização do aborto. Acho que o projeto não passa, não segue adiante para ser votado no plenário da Casa. A resistência é grande", avalia Dias. O projeto de descriminalização do aborto tramita no Congresso Nacional desde 1991. Atualmente, é permitido apenas o aborto nos casos em que a gravidez oferece risco de vida à mulher ou a gestação for conseqüência de estupro. Até mesmo as mulheres grávidas de bebês sem cérebro precisam recorrer à Justiça para conseguir direito ao aborto. Muitas delas não conseguem a autorização a tempo. Representante do Centro de Estudos Feministas e Assessoria, Gilda Cabral, defende que levar a gravidez adiante deve ser uma decisão da mulher. "Tirar o aborto do Código Penal significa dizer que ele não será mais crime. A mulher que interromper a gravidez não correrá mais o risco de ser presa", avalia Gilda. "O projeto não obriga os hospitais públicos e os planos de saúde a financiarem o aborto. A regulamentação disso, com regras e limites, seria feito pelo Ministério da Saúde por meio de Norma Técnica, como já aconteceu em outros países." A Organização Mundial de Saúde estabelece em 22 semanas o limite para que seja feito aborto. Acima desse período, a organização considera parto de bebê prematuro. Pelos cálculos do Ministério da Saúde, no Brasil, 31% das gestações terminam em aborto. No país, são cerca de 1,4 milhão de abortos por ano – não passa de 2 mil o número de cirurgias nos hospitais públicos em casos de gestação por estupro ou risco de vida para a mãe. A interrupção da gravidez, principalmente quando feita em condição precária, é a quarta causa de morte de mulheres durante a gestação, parto e pós-parto. Ela perde apenas para doenças como hipertensão, hemorragia e infecção. Fonte/ Link originalmente publicado através da URL:
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| Links
Recomendados UNFPA
Brasil (Fundo de População das Nações
Unidas) PROJETO
SALUTE Mais links recomendados no website de Ipas Brasil: http://www.ipas.org.br/links.html ou na Biblioteca online: http://www.ipas.org.br/biblioteca.html
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Ciência
e Pesquisa ISSN: 0267-4874, Ui: 96315954, PMID: 8739511, Nome de substância: 59122-46-2 (Misoprostol)
Título: Factores
de riesgo demográficos y sociales del aborto / Demographic
and social risk factors of abortion Localização: CU1.1- Fonte: LILACS
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| Ipas
Global Assim como muitos países africanos que emergem de uma guerra civil e que ainda se encontram a enfrentar necessidades de ajustes estruturais, Moçambique tem uma baixa utilização de contraceptivos e um alto índice de mortalidade materna (1000 mortes maternas por cada 100.000 nascimentos de bebês vivos; OMS, 2004b). O grande número das complicações do aborto o alto custo que isso acarreta, representam uma pesada responsabilidade para o sobrecarregado sistema de saúde da nação. As admissões para atenção pós-aborto constituem mais de 55% de todas as complicações obstétricas tratadas em Moçambique (Jamisse et al, 2004). Em resposta às altas taxas de morbilidade e mortalidade, o Ministério da Saúde de Moçambique, com o apoio técnico e financeiro do Ipas, conduziu uma ampla avaliação dos serviços relacionados com o aborto em 45 Unidades Sanitárias do sector público, ao longo de 2002 e 2003. O objetivo da avaliação foi a recomendação de intervenções que possam melhor atender as necessidades de saúde reprodutiva das mulheres, reduzindo a morbilidade e a mortalidade maternas em Moçambique. A avaliação consistiu em entrevistas aos profissionais de saúde a respeito da capacitação e fornecimento de serviços de aborto e pós-aborto, e de entrevistas com mulheres sobre a qualidade dos serviços relacionados com o aborto. Durante uma conferência realizada em Abril de 2004 para divulgar os resultados da avaliação, foram apresentados importantes parâmetros que delineavam uma ampla estratégia para reduzir no país a mortalidade materna causada por abortos realizados em condições de risco. As intervenções propostas incluíam as seguintes:
Este documento faz um esboço das principais áreas de actuação e traz recomendações para a melhoria dos serviços de assistência ao aborto no sector público da saúde em todo o país.
Jovens na Rede é um estudo inovador, baseado em escolas e no uso da Internet, que envolveu 1410 jovens (677 meninos e 733 meninas), em cinco escolas públicas do ensino fundamental e médio no Rio de Janeiro, Brasil. Escolas técnicas administradas pelo Governo do Estado e escolas administradas pelo Governo Federal, filiadas à Universidade, participaram durante 17 meses, ao longo de 2003 e 2004, seja como escolas na rede ou escolas controle. Tomaram parte alunos que cursavam desde a sexta série do ensino fundamental até o segundo ano do ensino médio. A idade média dos alunos no início do estudo era de 17,7 anos, sendo que as idades variavam de 11 a 23 anos. Oitenta e três por cento dos alunos que participaram tinham entre 13 e 17 anos. As meninas representavam 52% do grupo de alunos do estudo. Um total de 719 estudantes (51% de todos os que entraram no estudo) completaram o último dos seis módulos, dos quais 561 eram alunos na rede e 158 eram alunos controle. Deste grupo final, cerca de 59% eram do sexo feminino. As
escolas na rede receberam computadores para que os alunos pudessem responder às
perguntas do estudo sobre suas vidas e sua saúde através
da Internet. Na medida em que os alunos terminavam de responder às
perguntas abertas e às de múltipla
escolha sobre saúde do adolescente, eles tinham a possibilidade
de aprender sobre temas de saúde através
da Internet. Um dos sites disponíveis apresentava o conteúdo
do You, Your Life, Your Dreams: A Book for Adolescents (Você, Sua
Vida, Seus Sonhos: Um Livro para Adolescentes), do Family Care International,
e havia, ainda, sites preparados por especialistas brasileiros em adolescência.
Ao final do projeto, os computadores foram doados para as escolas. 1. Compreender
melhor as necessidades sociais, educacionais e de saúde
sexual de alunos Este relatório resume algumas das principais descobertas do projeto. Baseia-se nas respostas dos participantes das escolas na rede que completaram aquele módulo específico. No caso do componente avaliação, a análise também inclui 158 alunos das escolas controle.
Direitos
Sexuais e Reprodutivos em Destaque Baseando-se na experiência adquirida em mais de 10 anos desenvolvendo atividades de capacitação técnica em saúde, advocacy para o acesso ao aborto legal e seguro, e participando no desenho de políticas relacionadas à atenção humanizada ao abortamento, Ipas Brasil está desenvolvendo novas estratégias políticas para apoiar a reforma da legislação sobre o aborto e a sua efetiva implementação no Brasil, atuando em conjunto com segmentos da sociedade civil, do governo e dos setores da Justiça e da saúde. Recentemente, Ipas Brasil participou do grupo técnico, coordenado pelo Ministério da Saúde (MS), que foi responsável pela elaboração da Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento de 2005. A Norma é uma política que estabelece diretrizes para a atenção nos serviços incluindo aspectos técnicos, legais e éticos, tais como o aconselhamento e a contracepção pós-abortamento. Complementando estas iniciativas, em 2 de agosto de 2005, o Ipas Brasil e a Secretaria Especial de Políticas para a Mulher promoveram conjuntamente o Seminário Internacional Reforma Legal para avançar na proteção dos direitos sexuais e reprodutivos no Brasil, em Brasília. Os principais objetivos deste evento foram: aprender com a experiência de países em desenvolvimento sobre processos similares de reforma da lei sobre o aborto; examinar tendências, argumentos e estratégias de advocacy usadas na reforma de legislação em outros países do mundo, principalmente na mesma região; compreender os pontos específicos sobre a situação brasileira em relação à legislação sobre o aborto, saúde das mulheres e direitos humanos; criar possibilidades para outros debates sobre reforma legal e a nova legislação, para garantir o acesso das mulheres ao aborto seguro, entre diferentes atores, incluindo: feministas, juízes, advogados, profissionais de saúde, parlamentares, jornalistas e pessoas interessadas no tema. O seminário foi realizado em um momento muito especial
e sem precedentes. Em 2005, a Secretaria Especial de Políticas
para a Mulher estabeleceu uma Comissão Tripartite constituída
por membros do Executivo e Legislativo, bem como de organizações
da sociedade civil, para fazer uma revisão da atual legislação
sobre o aborto e elaborar um anteprojeto de lei para ser apresentado
ao Congresso Nacional. Foi a primeira vez que a reforma da legislação
sobre o aborto foi discutida no âmbito do Poder Executivo. No
passado, o debate foi travado no Congresso, liderado por deputados
progressistas e apoiado por organizações feministas.
A Comissão trabalhou de abril a agosto de 2005 e o seminário
internacional foi uma primeira oportunidade de se apresentar e se debater
o anteprojeto de lei após o fim do seu trabalho.
Saúde
Sexual e Reprodutiva RESUMO:
Reflexões
e Opiniões No suplemento ao volume 12 (novembro 2004) de "Reproductive Health Matters" (questões de saúde reprodutiva, (www.rhmjournal.org.uk),foi publicada uma pesquisa sobre a reação dos ginecologistas-obstetras brasileiros à gravidez não desejada. Os autores são Aníbal Faúndes (Cemicamp e Unicamp), Graciana Alves Duarte (Cemicamp), Jorge Andalaít Neto (Febrasgo) e Maria Helena de Sousa (Cemicamp). O Cemicamp é o Centro de Pesquisas Materno-Infantis de Campinas e a Febrasgo é a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Em 2003, um questionário foi distribuído aos 14.320 ginecologistas-obstetras da Febrasgo. Desses, 4.270 responderam: uma amostragem significativa. Depois de registrar a idade, a situação familiar, as opiniões sobre o aborto e a relevância da fé religiosa do médico entrevistado, o questionário perguntava qual seria sua reação diante de uma paciente que não quisesse continuar sua gravidez por razões outras das que a lei brasileira permite (estupro e risco de vida para a mãe). A alternativa era ajudar (praticar o aborto, encaminhar para um colega que praticaria, explicar o uso do abortivo Cytotec) ou recusar a ajuda. Eram propostas duas situações: com uma paciente "qualquer" e com uma parente. Enfim, o questionário perguntava ao médico: "Se você é mulher, já teve uma gravidez absolutamente não desejada e sentiu que um aborto era necessário? O que você fez?". Ou, então: "Se você é homem, aconteceu que sua parceira tivesse uma gravidez absolutamente não desejada e sentisse que um aborto era necessário? O que ela fez?". A pesquisa constatou que a conduta do médico depende de suas opiniões sobre a prática do aborto, e pouco importa que a paciente seja ou não membro da família do profissional. Agora, quando a gravidez não desejada é a da própria médica ou da parceira do médico, a coisa muda. Só uma pequena percentagem dos entrevistados tinha vivido pessoalmente uma situação em que um aborto parecesse necessário. Mas, nesse grupo reduzido, 70% dos que se declaravam contra o aborto por razões de consciência escolheram interromper a gravidez. Os autores comentam: "A atitude dos médicos muda quando o dilema de uma gravidez não desejada os afeta diretamente". "Mesmo que fossem fortemente opostos ao aborto, provavelmente eles entenderam sua situação como "excepcional" (...) O que talvez eles não percebam é que, para cada mulher que passa por um aborto, as circunstâncias são excepcionais". Claro,
o "rigor" moral é facilmente praticável quando
ele se aplica aos outros e não à gente. Mas não
quero estigmatizar a "hipocrisia" de quem é "contra" o
aborto e abre uma exceção quando o problema surge em
casa. Com os autores da pesquisa, considero que qualquer situação
de vida é "excepcional", Essa disposição a conceber o indivíduo como "exceção" é hoje facilmente criticada por ser "permissiva" ou imoral: se cada caso é um caso, regras e preceitos valem pouco ou nada, não é? Pode ser, mas o pensamento moral de quem lida com casos, todos únicos, é sempre mais complexo e profundo do que o pensamento de quem lida com princípios.Acho estranho, aliás, que a unicidade da experiência humana seja freqüentemente invocada apenas como uma atenuante ("Desculpe-me, pois minha história é diferente") e não promovida como um valor: a grandeza da inquietude moral moderna consiste justamente na capacidade de reconhecer que pode haver regras, mas, antes disso, há, sobretudo, casos. Acho estranho, mas não deveria, pois esse é só um exemplo de uma mudança que é urgente entender. Voltemos ao aborto: até 20 anos atrás, o debate opunha dois ideários. Os que eram contra invocavam sua fé religiosa, a vida como valor absoluto, a necessidade de manter (pelo peso dasconseqüências) a "seriedade" das relações sexuais, a existência de uma alma subjetiva desde a concepção. Os que eram a favor promoviam o direito de as mulheres disporem de seu corpo, o direito de cada criança ser desejada ou aceita no mundo (pela racionalidade do planejamento familiar), o direito ao prazer dos corpos sem a intenção reprodutora. Enfrentavam-se sistemas de valores opostos, mas ambos positivos, afirmativos. Ora, nos últimos anos, os "progressistas" parecem ter perdido a confiança em seu próprio ideário. Talvez por ressaca do sonho socialista (mas essa explicação começa a cansar), os ideais libertários nascidos nos anos 60 e 70 não são mais vividos e promovidos como um conjunto de valores positivos, capazes de dar forma a uma sociedade. O debate mudou de cara: aparentemente, os valores tradicionais enfrentam não valores opostos, mas só sua própria crise. Ou seja, o debate entre morais diferentes se transformou em debate entre a moralidade tradicional e seus fracassos. Talvez a dita pós-modernidade seja isto: um desânimo dos valores libertários, que não conseguem mais se apresentar como valores. Com isso, cada vez mais, os valores tradicionais encontram apenas, como oposição, uma espécie de hedonismo envergonhado.
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| Conselho Editorial | ||
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Paulo
Azevedo Osmar Colás Oswaldo José Queiroz Dias Rivaldo Albuquerque Roberto Benzecry Sônia Madi Valéria Pandjiarjian Vera Rolim |
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Revista
de Saúde Sexual e Reprodutiva IPAS BRASIL |
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| Coordenação
Editorial - Leila Adesse Editor - Jefferson Drezett Editoração - Alessandra Foelkel Editores Associados - Cristião Fernando Rosas e Roberto Benzecry |
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