"A
mulher não provoca um aborto por prazer
ou capricho"
Aníbal
Faundes ,médico
ginecologista e obstetra, consultor permanente
da Organização Mundial de Saúde
e professor da Universidade de Campinas, coordena
atualmente o projeto que instituiu, no Brasil,
o Fórum Interprofissional de Atenção à Mulher
Vítima de Violência Sexual. Desde
1996, o Fórum reúne anualmente profissionais
de saúde, em sua maioria médicos
ginecologistas e professores; operadores do direito,
organizações não governamentais
e grupos feministas para discutir o atendimento
prestado às mulheres agredidas sexualmente.
Com a habilidade que lhe é peculiar, Dr.
Faundes vem contribuindo de maneira exemplar para
a instalação de serviços de
atenção às vítimas
de violência, incluindo a interrupção
voluntária da gravidez nos casos permitidos
em lei. Nessa entrevista ele nos fala deste projeto
e das motivações que o levaram a
priorizar este problema no contexto de seu trabalho
pela garantia dos direitos da mulher.
Rhamas:
O senhor poderia resumir a proposta do Fórum
e quais os motivos que lhe fizeram criar o projeto?
Faundes: Faz muito
tempo que a questão do aborto me preocupa como médico e como
cidadão. Eu acreditava que o acesso à informação
e aos meios para prevenir a gravidez poderia ser a solução
deste problema. Fui percebendo que isso ajuda, mas não resolve.
Aprendi também, pela própria experiência, que é fundamental
colocar em prática as leis existentes. (Ele refere-se ao artigo
128 do Código Penal Brasileiro que trata do aborto em caso
de estupro e risco de vida para a mulher). Tínhamos consciência
que a lei não era aplicada por carência de informação
sobre os procedimentos adequados para garantir os direitos da mulher
sem ferir a lei e a ética médica, e não por
falta de sensibilidade dos médicos.
Baseados nisso pesquisamos os procedimentos dos poucos hospitais
que faziam aborto legal e então convocamos o primeiro Fórum em 1996. A idéia
inicial era expor colegas ginecologistas e obstetras, do maior prestigio no
Brasil, aos argumentos das mulheres, cientistas sociais, operadores do direito,
e professores de ética e de medicina legal sobre o direito da mulher
abortar, no contexto da lei.
O resultado foi que os professores de ginecologia e obstetrícia, presentes,
comprometeram-se a instalar o atendimento ao aborto legal nos seus serviços.
Como sabemos que um evento isolado é útil, mas não suficiente,
nos propusemos a realizar Fóruns anuais para dar seguimento às
boas intenções iniciais. Quase todos os 15 Professores que participaram
no primeiro Fórum cumpriram a promessa, apesar de que alguns demoraram
até 4 anos para fazê-lo.
Rhamas:
Que outros resultados o Fórum apresenta até o
momento?
Faundes: É muito difícil
atribuir aos Fóruns determinados resultados quando há tantas
outras iniciativas com o mesmo objetivo. Penso que a proposta de
centrar-se no atendimento integral à mulher vítima
de violência (da emergência até a interrupção
da gestação se for necessário), foi muito feliz
no sentido de mostrar que a mulher que solicita interrupção
por estupro não está inventando nada. Mostramos que
esse tipo de violência existe e é muito freqüente,
sensibilizando as equipes de saúde. Assim, junto com diversas
atividades do movimento de mulheres, da FEBRASGO, do CEMICAMP e do
próprio Ministério de Saúde, o Fórum
tem contribuído para que hoje tenhamos serviços em
quase todos os estados do Brasil.
Rhamas:
Que questões, de seu interesse, ainda não
foram tratadas pelo Fórum?
Faundes: Acho
que se tem esquecido uma outra violência, que é a dificuldade que se coloca
ao aborto por risco de vida da gestante. Julgo que o médico
não deve ser responsável pela decisão do grau
de risco de vida que uma mulher deve correr para ter um filho. A
decisão informada deve ser da própria mulher. Ela é quem
pode saber quanto risco está disposta a correr, de acordo
com suas circunstâncias e as de sua família. Avançar
nesse sentido é um desafio para o Ministério da Saúde
e para a FEBRASGO. Como coordenador do Grupo de Estudos dos Direitos
Sexuais e Reprodutivos da FEBRASGO estou disposto a colaborar neste
ponto.
Rhamas:
De que maneira o problema da violência passou
a fazer parte de seus interesses profissionais, houve
um determinado momento em que isso veio à tona
ou um caso marcante?
Faundes: Dra
Ellen Hardy, que por acaso é a mulher com que vivo por varias décadas
e tem-me ensinado muito, fez uma pesquisa em que perguntava às
mulheres se alguma vez elas tiveram relações sexuais
contra sua vontade. Quando vi que 62% resposta sim, eu disse para
ela que deveria haver algum erro na forma de fazer a pergunta. Que
isso não podia estar correto. Ai ela me lembrou de determinadas
situações em que eu tinha atuado como "homem autor
de violência" com ela. Confesso que até esse momento
não tinha consciência desse fato, mas após ela
me lembrar do que aconteceu em tal e tal outra oportunidade, tive
que aceitar que ela estava certa. Isto me ensinou a ver essas coisas
a partir do ponto de vista da mulher e me revelou a dimensão
do problema, como terrível expressão das diferenças
de gênero.
Rhamas:
E a questão do aborto, qual a sua posição
sobre o assunto?
Faundes: Como
praticamente qualquer obstetra que dedica sua vida
a defender o feto juntamente com a mulher
que o carrega, acho que o aborto é sempre um acontecimento
indesejável. Inicialmente, ainda estudante de medicina, condenava
a mulher que fazia um aborto, até que comecei a escutar suas
histórias. Assim aprendi que a mulher que aborta é vítima
de um conjunto de circunstâncias, que não cabe enumerar
aqui. Aprendi também, que apesar de que a maioria delas fica
aliviada após um aborto e ciente de ter feito a coisa certa,
praticamente todas teriam preferido não passar por essa traumática
experiência. Por isso sou contra o aborto, ao mesmo tempo sou
contra que se transforme a mulher que aborta em criminosa. Para mim,
ser contra o aborto é atuar para evitar suas causas, que vão
desde as diferenças de poder entre homens e mulheres até a
falta de proteção social verdadeira para a mulher que
decide ter um filho. Essa proteção passa pela informação
completa e honesta sobre os métodos anticoncepcionais e pelo
livre acesso a seu uso. A experiência mundial mostra que criminalizar
o aborto não impede que ele ocorra, apenas aumenta o sofrimento
e risco de morte da mulher.
Rhamas:
Quais as principais dificuldades em abordar esse
tema com os seus colegas, professores titulares das
universidades, e com os residentes? Quem opõe
mais resistência a tratar do assunto?
Faundes: Estou
convencido que as diferenças de opinião são menores do que
muitos imaginam. Uma vez bem informados, a posição
que expressei acima dificilmente é contestada. Todavia, há pessoas
que não aceitam nenhuma justificativa para a interrupção
da gestação, e tenho o maior respeito quando essa posição é sincera.
Mas, assim como é preciso tolerar essa posição,
também temos que exigir tolerância com a nossa. O principal
problema é que muitas pessoas que pensam igual a nós
não têm coragem de expressar-se em público, com
a falsa idéia de que a maioria das pessoas irá censurá-las.
Também tenho respeito por esses colegas, apesar de estimulá-los
a perderem o temor de expressar-se. Os que não merecem meu
respeito são aqueles que expressam em público uma posição
e adotam uma pratica contrária. Logicamente que essa dupla
face não é tolerável
Rhamas:
Como cientista, qual a sua opinião sobre o
impacto da lei que criminaliza o aborto?
Faundes: Os países com
as menores taxas de aborto por mil mulheres em idade fértil
são países em que o aborto está plenamente liberado
e pago pelo estado. Países da América latina com leis,
restritivas têm taxas até 10 vezes mais elevadas, o
que demonstra que a proibição legal não evita
abortos. Por outro lado, países católicos não
têm menos abortos que os não católicos e mulheres
que adotam essa religião não tem menos abortos que
aquelas sem religião, o que mostra que a proibição
religiosa também não funciona. Como já disse,
a mulher não provoca um aborto por prazer ou capricho. Ela
o faz quando a sociedade a coloca em tal situação,
que não vê outra saída. Nesse caso nenhuma proibição
e nenhum risco mudarão sua conduta ou terá o filho,
não desejado, como acontece com freqüência, apenas
porque não encontrou os recursos que a permitissem abortar.
Rhamas:
A freira Ivone Gebara, numa entrevista à revista
Veja, anos atrás, disse que os homens abortam
com palavras. Qual a sua opinião sobre a posição
dos homens em relação ao aborto e a
maternidade em geral?
Faundes: Eu escutei
essa expressão
da Maria Bethania Ávila antes de ler a Veja, e me pareceu
uma forma muito feliz de ilustrar a posição mais freqüente
do homem: não querem nem saber! Mas as reações
dos homens são as mais variadas e dependem muito das características
da relação afetiva do casal. Quando a relação
não é estável, nem muito boa, a defesa de colocar
em dúvida a paternidade é tão fácil como
covarde. Mas há outros que dão total apoio a qualquer
decisão da mulher. Há também o homem que obriga
a mulher a abortar com a ameaça do abandono ou se limita a
dar dinheiro para pagar o procedimento. Independente da variedade
de situações o que não há duvida é que
o choque emocional do aborto é mínimo para o homem
em comparação com a mulher.
Rhamas:
Será que os homens poderão ter - em
algum momento - a compreensão clara de que
eles decidiram abortar, que eles abortaram?
Faundes: Acho
que é desvalorizar
demais os homens em geral, pensar que não são capazes
de compreender que esse aborto também é deles.
Rhamas:
Uma curiosidade histórica, como foi a sua
experiência no Chile de Allende, coordenando
a saúde materno-infantil? Que ações
dirigidas à mulher puderam ser realizadas
no curto período em que ele esteve à frente
do governo?
Faundes: Foi
um grande privilégio.
Eu já tinha formado parte de comitês assessores dos
programas de saúde materna e planejamento familiar dos dois
governos anteriores (Um de direita e outro, democrata-cristão
de centro esquerda). Além disso tinha dirigido o atendimento
materno na Área de Saúde Sul de Santiago, com quase
um milhão de habitantes, de forma que já tinha alguma
experiência. Eu fui convidado logo que o novo governo assumiu.
A primeira mudança que propus, aceita de imediato, foi a de
transformar o programa de saúde materna em programa de saúde
da mulher, reconhecendo que a mulher tem necessidades de saúde
que vão além a função de mãe.
Uma das experiências mais interessantes foi a de escrever a
parte correspondente à saúde da mulher na primeira
mensagem do presidente Allende ao Congresso Nacional, no primeiro
aniversario de governo. Pena que não tenho o texto, mas é basicamente
o que aqui no Brasil recebeu o nome de Programa de Atenção
Integral à Saúde da Mulher.
Rhamas:
Por quanto tempo o senhor dirigiu o programa?
Faundes: Antes
de completar 2 anos renunciei ao cargo, porque me
foi colocada como condição
para permanecer, a filiação em um dos partidos do governo.
De volta ao Hospital Barros Luco, onde continuei dando plantões
durante meu período na Direção do Serviço
Nacional de Saúde, participei do movimento interno que levou
a compreensão de que a mulher que tinha decidido abortar,
tinha uma gravidez que colocava em risco sua vida e, portanto, passava
a ter direito legal a interrupção da gestação
em hospital público. Esta decisão, que não foi
fácil nem precipitada, foi comunicada oficialmente às
autoridades competentes e logicamente chegou aos meios de comunicação
que deram uma cobertura muito objetiva. Claro que tudo isso terminou
com o golpe militar o 11 de Setembro de 1973.
Rhamas:
Por fim, a violência contra a mulher pode acabar?
Faundes: Infelizmente
a violência
parece ser inerente ao ser humano. O que pode acabar é a violência
seletiva contra a mulher como um fenômeno à parte, derivado
das diferenças de poder entre gêneros. Pessoalmente
estou convencido que relações entre um homem e uma
mulher em que não exista predomínio de poder de um
sobre o outro, dão muito mais satisfação a ambos
que relações em que um manda e outro obedece. Como
sou otimista, acho que no Brasil vamos caminhando nessa direção,
cada vez com maior tolerância e menos diferenças entre
gêneros. Agora no mundo a coisa é diferente. Assusta-me
sobretudo, a falta de autocrítica do pais mais poderoso do
mundo (EUA), que se atribui o Bem absoluto e quem não concordar
100% está do lado do Mal. Com toda minha admiração
pela sua história democrática interna é impossível
ignorar as inúmeras vezes que planejou e protegeu ações
terroristas, e agora mesmo, a imposição abusiva de
termos de intercâmbio comercial favoráveis apenas para
eles. É verdade que o fundamentalismo religioso é um
grande perigo, mas é desalentador verificar que a solução
encontrada pelo país mais poderoso seja policial, em lugar
de avaliar suas causas. É muito semelhante à idéia
de que para acabar com o aborto a solução é proibi-lo
e castigar a mulher que o sofre.
Rhamas:
Dr. Faundes, obrigada pela entrevista e nossos cumprimentos
pela transparência ao expor suas opiniões.