Entrevistas

"ainda não sei se o que eu faço é o melhor"

José Marsiglio Neto,médico, especialista em ginecologia e obstetrícia do Hospital Materno-Infantil de Brasília, nos fala de sua experiência no atendimento a mulheres vítimas de violência sexual. Citando casos vividos, Marsíglio aborda as dificuldades de trabalhar com um tema para o qual não teve uma formação na universidade ou na especialização. Para ele, a melhor maneira de capacitar profissionais de saúde é compartilhar experiências.

Rhamas: A violência sexual não faz parte do currículo de medicina na maioria das universidades brasileiras. Como se dá essa descoberta na prática profissional?
Marsíglio: Depende do momento da vida, e da sensibilidade de cada um. A maioria dos médicos encara a violência como algo do dia a dia. É o que o escritor Roberta Crema chama "normose", isto é, todo mundo se acostuma com o problema. Era mais ou menos assim para mim até o momento em que eu comecei a tomar consciência.

Rhamas: E o que mudou no seu trabalho?
Marsíglio: Na verdade, acho que foi a minha evolução como ser humano. Há dois anos, quando já estava em Brasília, uma colega nos contou o caso de um pai, de classe alta, que assediava o filho, um menino de seis anos. Este homem também havia sido abusado na infância. Foi um choque. Eu não conseguia admitir a violência contra a criança. Nesse momento eu comecei a mudar e quando atendia as mulheres vítimas de violência procurava fazer da maneira melhor possível. Mas eu não sabia como deveria atendê-las. Quando fui ao Hospital das Clínicas, em São Paulo, para rever amigos, estava sendo organizado o serviço de violência. Foi um encontro decisivo, ficou claro para mim que eu não sabia o que estava fazendo, nós tratávamos dos aspectos clínicos, cirúrgicos e encaminhávamos as mulheres para o Instituto Médico Legal (IML) como se eles fossem resolver o problema. Eu me dei conta de que um grande número de mulheres sofre este tipo de violência e a gente nada faz. Nesse período eu comecei a estudar o assunto.

Rhamas - Nessa época, já exista o serviço de Brasília?
Marsíglio - No Hospital Materno-Infantil de Brasília (HMIB) existia o serviço para vítimas de violência sexual que começou atendendo as mulheres que chegavam grávidas. O atendimento integral, com anticoncepção de emergência, solicitação de exames, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e apoio psicossocial, ainda está sendo implantado, tanto que até agora, nem todas as equipes realizam os procedimentos de rotina.

Rhamas - Você estava preocupado com a forma de atender a mulher?
Marsíglio - Eu fazia a prevenção da sífilis, antitoxina tetânica, se necessário, mas não sabia que poderia fazer a prevenção da hepatite, por exemplo.


Rhamas - Além disso, o que lhe parece ser competência do médico?
Marsíglio - O acompanhamento, não só na urgência. Embora eu esteja trabalhando com isso há quase dois anos, eu ainda não sei se o que eu faço é o melhor. Uma médica de São Paulo, por exemplo, após colher o material vaginal para exame, faz uma limpeza da vagina com gaze embebida em soro fisiológico, e a paciente sente-se mais limpa.

Rhamas - O nojo é uma sensação relatada freqüentemente pelas mulheres estupradas...
Marsíglio - É, mas eu creio que ninguém costuma fazer isso. Essa conduta poderia se tornar uma norma, para que as mulheres se sintam mais limpas, liberadas daquela sensação de sujeira.

Rhamas - O trabalho em equipe muda sua perspectiva de atuação como médico?
Marsíglio - Claro, é primordial. O papel do médico nem sempre é o mais importante. Ele examina, solicita exames, prescreve os medicamentos, esclarece a mulher sobre os tratamentos, de acordo com a rotina do serviço, mas o acolhimento e apoio psicossocial são feitos pela enfermeira, assistente social e psicóloga. Eu nunca havia participado de um trabalho em equipe, eu fazia a minha parte mas não estava preocupado com o atendimento global da paciente. Nesse novo contexto, há troca de idéias, acompanha-se o trabalho dos colegas e é possível saber o que está acontecendo durante todo o processo.

Rhamas - No consultório, você já teve algum caso de violência sexual?
Marsíglio - Não, embora eu ache que há mulheres que sofrem violência e não falam do problema, por isso converso muito sobre a sexualidade com as pacientes.

Rhamas - Se uma mulher vai ao seu consultório três, quatro vezes com a mesma queixa, com infecções urinárias de repetição ou doenças sexualmente transmissíveis, uma doença inflamatória pélvica, uma dor de cabeça constante, problemas que podem associados à violência, como você aborda a questão?
Marsíglio - Hoje em dia eu direciono as perguntas e procuro investigar melhor a situação. Nesse caso, a primeira coisa que eu pergunto é como está sendo a relação sexual e se ela sente dor. Porque, se a mulher não está totalmente lubrificada, se ela não está sendo preparada para a relação, ou se está sendo coagida, ela vai ter problema durante a relação sexual. Depois eu faço perguntas mais diretas, como: em função dessas doenças repetidas, será que está havendo algum problema na relação sexual, e não está sendo está legal pra você? A questão da violência sexual deve ser introduzida de uma forma delicada. Não adianta perguntar se a mulher está sendo vítima de violência. Assim, é provável que ela diga não.

Rhamas - É verdade. A palavra violência parece não ser adequada para uma pergunta direta, ela está mais ligada ao diagnóstico do que à entrevista com a pessoa. Mas, em mais de vinte anos de consultório, você nunca teve casos de estupro?
Marsíglio - Recentemente, uma moça me procurou no HMIB e depois no consultório. Ela tinha sido estuprada e queria tirar dúvidas sobre alguns exames laboratoriais. Ela já estava sendo acompanhada por uma ginecologista e por uma psicóloga. O meu trabalho foi de assessoria. Atualmente ela está muito bem.

Rhamas - O você acha fundamental para a mulher superar um estupro?
Marsíglio - Racionalmente é o acompanhamento após o estupro, com suporte médico, psicológico, social. Mas há o aspecto subjetivo, e o que realmente faz com que uma mulher supere a violência é a maneira dela enfrentar o problema e o apoio que ela tem. Uma menina que me procurou, por exemplo, teve um grande apoio do namorado. Eles continuam juntos, estão bem, ela se sente protegida. Aparentemente ela superou o problema. Quando a situação é vivida pela mulher como o fim do mundo, destruição dos projetos de vida, sonhos, se ela sente-se castigada, punida ou culpada, a dificuldade de superar é maior. Às vezes a religião ajuda, noutras atrapalha porque acentua a idéia de culpa e pecado.

Rhamas - Como homem, o que lhe faz querer ajudar uma mulher vítima de violência?
Marsíglio - É um ser humano que está ali, que foi agredido, que não tem culpa, que foi subjugado e que está sofrendo. Eu me identifico com o fato de que a outra foi sujeitada; o que pode acontecer com um homem também. Eu não aceito ser obrigado a fazer algo contra a vontade, e por isso sou solidário com ela.

Rhamas - O que se opõe à violência?
Marsíglio - É o respeito pelo outro. Se você sempre respeita outra pessoa, não está sendo violento. Para isso é preciso reconhecer os próprios limites.

Rhamas - Qual conselho para um médico que está começando a atender vítimas de violência?
Marsíglio - Tentar deixar o ambiente mais leve; quebrar a tensão, tirar o estresse da consulta. Este aprendizado se dá com o tempo. No caso de criança ou menor violentado deve-se evitar o toque, que pode ser muito traumático. Elas temem o adulto depois de uma agressão. Um colega relatou que era tão formal e sério nos primeiros atendimentos, que a mulher poderia achar o problema ainda mais grave. Aos poucos ele percebeu que era melhor ficar mais à vontade e até brincar durante a entrevista, mostrando para a mulher que o problema será resolvido e o sofrimento vai acabar.

Rhamas - Do seu ponto de vista, que conteúdos devem ser tratados num curso sobre atendimento à vítima de violência?
Marsíglio - Eu acho que o ponto básico é a experiência das pessoas que atendem há mais tempo. Não existe um procedimento padrão, mas há coisas que não devem ser feitas, e isso deve ser trabalhado com as equipes. Também é importante discutir a organização da rede, como a mulher vai ser atendida, o fluxo do atendimento. Em Ribeirão Preto/SP, por exemplo, enquanto a mulher é atendida pelo ginecologista, um médico legista é chamado e vem ao hospital fazer o exame. Assim, a mulher não fica andando de um lugar para outro.

Rhamas - Qual o ponto forte do seu atendimento?
Marsíglio - É procurar perceber o que a paciente está necessitando.

Rhamas agradece a disponibilidade de Marsíglio para esta entrevista

Rhamas