COMO ORGANIZAR UMA REDE LOCAL DE ATENDIMENTO ÀS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA?

Guardadas as particularidades de cada local, alguns passos se repetem e são necessários para a criação e consolidação das redes locais de atendimento a vitimas de violência doméstica e sexual. Serão descritos a seguir os passos principais desse processo.

Passo 1 - articulação
Identificação das pessoas e instituições; formalização da rede em documento; sensibilização dos integrantes sobre violência de gênero; construção de uma linguagem comum; definição do processo de coordenação da rede, funções de cada instituição ou pessoas.
Qualquer instituição interessada pode tomar a iniciativa de criação da rede de atendimento. No entanto funcionam melhor as redes que têm o suporte governamental garantindo o acesso das usuárias aos serviços de referência. O papel de cada membro deve ser amplamente discutido. O processo é longo, envolve debates e conflitos até o estabelecimento de consensos, porém para a construção de uma linguagem comum e o desenvolvimento de ações conjuntas não há outro caminho possível.
Nas experiências em curso, as instituições participantes reúnem-se periodicamente para tomar decisões, definir linhas de trabalho, etc. Pode-se aproveitar esses momentos para aprofundar o conhecimento do grupo acerca do problema da violência e do atendimento, convidando pessoas com experiência na área ou em assuntos afins para ministrar aulas, fazer palestras, debates ou discussão de casos. Essa é uma tarefa nova para muitos profissionais e o grupo que coordena o processo também necessita de suporte técnico.

Passo 2 - consolidação
Definição dos serviços de referência (nível primário, secundário e terciário), das normas a serem utilizadas e condições de atendimento de cada serviço/setor; capacitação das equipes nos diferentes setores; treinamento teórico e prático dos responsáveis pelo atendimento e acolhimento das vítimas; sensibilização dos funcionários e técnicos não envolvidos no atendimento, criando um consenso institucional sobre a importância do trabalho; definição do processo de avaliação dos serviços envolvidos.
A sensibilização e capacitação das equipes têm especificidades para cada setor. No entanto, o enfoque da violência no contexto dos direitos humanos, assim como gênero, violência e consequências para a saúde são temas transversais, que dão suporte para a compreensão do problema da violência contra a mulher enquanto processo histórico, social e político, por isso justifica-se sua inserção em todos os treinamentos.

Passo 3 - Garantir a oferta de serviço com enfoque integral
Implantação das rotinas estabelecidas em cada serviço; implantação do processo de avaliação continuada do atendimento em cada serviço; implantação de estratégias de suporte de quem atende diretamente as vítimas de violência.
Embora as demandas decorrentes da violência recaiam sobre os serviços de saúde e delegacias de polícia em primeira mão, e apesar de constituírem pontos de rede extremamente importantes, a violência contra a mulher não se resolve unicamente a partir da intervenção desses setores.
A integralidade não depende apenas do tipo de serviço envolvido mas também da abordagem da pessoa agredida. Cada mulher tem uma história de vida única, e precisa ser escutada em todas as suas dimensões, embora as queixas e os fatos possam parecer os mesmos depois que se atende um cem número de casos.
A implantação dos protocolos de atendimento não deve ser feita de maneira normativa, ou impositiva. As equipes precisam de acompanhamento, inclusive para tirar dúvidas, discutir casos mais complexos, avaliar a condução dos caso atendidos e para falar de suas próprias inquietações e conflitos. Quem trabalha nos serviços que atendem vítimas de violência não está imune ao problema. Há relatos de pessoas que descobriram terem sido vitimas de abuso sexual durante a capacitação. Outras sofrem violência em casa e não expressam o seu sofrimento de imediato. Daí a importância da supervisão clínica e dos grupos de reflexão para as equipes de referência.

Passo 4 - Acompanhamento avaliação da rede
Manutenção das reuniões periódicas com todos os componentes; avaliação geral e divulgação de resultados.
O contato periódico fortalece a rede e dá visibilidade interna aos seus componentes. A divulgação dos resultados do trabalho dá visibilidade externa, amplia a compreensão do processo por parte de outros profissionais e instituições, valoriza o trabalho e facilita o acesso da clientela.

Passo 5 - Sensibilização da população alvo
A dimensão das atividades de sensibilização da população alvo dependerá do poder de articulação e dos recursos que os integrantes da rede manejam. Por outro lado o problema pode ser abordado de distintas maneiras. Pode-se investir na promoção de comportamentos não violentos, na discussão sobre o padrão vigente de masculinidade / feminilidade, sobre a educação das crianças e a resolução de conflitos com base no diálogo, enfim, pode-se utilizar os meios de comunicação e as instituições que lidam com grandes grupos: a escola, as comunidades religiosas, os sindicatos, as organizações de mulheres, etc
Nesse contexto, mesmo com poucos recursos é fundamental garantir o acesso da população aos serviços de referência, divulgando-os amplamente.

SERVIÇOS DE SAÚDE

Este texto foi escrito com base no documento:
Redes Locales Frente a la Violencia Familiar - Série: Violencia Intrafamiliar y Salud Publica. Documento de Análise nº 2. La Asociación de Solidaridad para Países Emergentes (ASPEm) / OPAS, Perú, Junho de 1999.

Rhamas