Porque
atender em redes: Papel das redes sociais primárias,
secundárias e intermediárias frente a violência
contra a mulher
O
que é uma rede?
Trata-se de um tecido de relações e interações que
se estabelecem com uma finalidade e se interconectam por meio de linhas de ação
ou trabalhos conjuntos. Os pontos de rede podem ser pessoas, instituições
ou grupos. Os diferentes tipos de redes têm uma função na
vida de cada pessoa e em particular para as mulheres em situação
de violência.
O
que é uma rede social primária?
Uma rede social primária é constituída por todas as relações
significativas que uma pessoa estabelece cotidianamente ao longo da vida. Cada
pessoa é o centro de sua própria rede, que é composta
por familiares, vizinhos, pessoas amigas, conhecidas, colegas de trabalho,
organizações das quais participa: políticas, religiosas,
sócio-culturais, etc. A socialização dos seres humanos
começa desde a infância e já nesse momento a rede de relacionamentos
que a criança vai construindo a sua volta é importante para o
desenvolvimento da identidade individual e coletiva.
Todas
as pessoas fazem parte de redes sociais!
As redes sociais permitem o exercício da solidariedade em situações
diversas, principalmente quando há ameaças, riscos, acidentes,
coletivos ou individuais. Em determinados momentos, são as redes sociais
primárias, construídas em torno de cada indivíduo, que
garantem a proteção, moradia e sobrevivência. Nos regimes
políticos autoritários, muitas pessoas escapam de perseguições
políticas, graças a essa rede de relações interpessoais.
Em casos de acidentes, nas enchentes, furacões, tremores de terra, as
medidas governamentais não seriam capazes de resolver tantos problemas
sem ajuda dos amigos, parentes e conhecidos das vítimas. Nestas ocasiões,
além das questões práticas a serem resolvidas, entram
em cena o apoio emocional, o ombro amigo, a compaixão, o acolhimento
para maior conforto e recuperação das pessoas atingidas. Não
só em momentos problemáticos as redes sociais tornam-se visíveis,
ela também se faz presente nos momentos de comemorações.
Mas, com freqüência, muitas pessoas dão-se conta das redes
de relações em que estão envolvidas apenas nos momentos
de grande necessidade. É comum ouvir-se: eu não sabia que poderia
contar com a ajuda de tanta gente ou mesmo desta ou daquela pessoa em particular.
Fica a gratidão, a certeza de não estar só no mundo, a
segurança de poder contar com ajuda no futuro. Do outro lado está o
prazer de ajudar, sentir-se útil, e receber um abraço ou um sorriso
troca.
Quais
são os outros tipos de redes existentes?
-
As redes sociais secundárias - formadas por profissionais
e funcionários de instituições públicas
ou privadas; organizações sociais, organizações
não governamentais, grupos organizados de mulheres,
associações comunitárias comunidade. Elas
fornecem atenção especializada, orientação
e informação.
- As redes sociais intermediárias - constituídas por pessoas
que receberam capacitação especializada - denominadas promotoras
- que podem vir do setor saúde, da educação, igreja, ou
da própria comunidade. Suas funções são a prevenção
e apoio. A experiência de promotoras populares é um exemplo na
prevenção da violência contra a mulher.
As redes secundárias e intermediárias formam-se pela atuação
coletiva de grupos, instituições e pessoas que defendem interesses
comuns. Dependendo do grau de liderança e da força de seus componentes
elas podem ter um grande poder de mobilização e articulação
para atingir seus objetivos.
Porque
as redes sociais são importantes para as mulheres
que sofrem violência doméstica ou sexual?
Em primeiro lugar porque a prevenção e o tratamento dos problemas
decorrentes da violência exige a atuação integrada e articulada
de diversos setores para garantir a qualidade da atenção e aumentar
as chances de resolução dos problemas. Não tem sentido
a atuação isolada de qualquer setor - delegacias, conselhos tutelares,
saúde, serviços de apoio social, das instituições
vinculadas ao trabalho, de organizações não governamentais
e comunitárias, entre outras. Cada instância tem um papel, importante,
no encaminhamento dos problemas apresentados pelas vítimas de violência
sexual e a desarticulação prejudica o desempenho de todos e dificulta
o acesso das mulheres aos direitos legalmente constituídos, por vezes
agravando a situação. No caso de vítimas de violência
sexual, por exemplo, a consulta médica imediata é condição
obrigatória para a prevenção de doenças sexualmente
transmissíveis, da gravidez e (conseqüentemente) do aborto pós-estupro.
O segundo aspecto da questão diz respeito à dificuldade das vítimas
denunciarem a violência ou procurarem ajuda. Para elas, não é fácil
fazer amigos, manter vínculos ou relações com pessoas
que possam socorrê-las numa emergência, inclusive na própria
família. Nada disso se passa por decisão da pessoa agredida.
Mas ao contrário, ela está nessas condições porque
não encontra meios de reagir, seja porque acredita que o agressor tem
direitos sobre ela, sendo pai ou companheiro, pelo medo das ameaças,
por vergonha de enfrentar a situação ou por não saber
a quem ou aonde pedir ajuda.
O isolamento da vítima é uma das estratégias utilizadas
pelo agressor. Ameaças de todos os tipos, proibições de
ter amigas, de sair só de casa, inclusive o cárcere privado são
formas de garantir o silêncio sobre o que acontece entre quatro paredes.
Diz o ditado que entre 4 paredes tudo é permitido a um casal. Ainda
que a população esteja referindo-se ao sexo, a violência
se encaixa perfeitamente nessa afirmação e na mentalidade de
quem acredita que em briga de marido e mulher não se mete a colher.
As mulheres, adolescentes e, em particular as meninas vítimas de abuso
sexual, são isoladas do mundo propositalmente pelo agressor que precisa
salvar a sua pele. Assim ele não será denunciado, descoberto
ou punido e poderá inclusive representar um papel social absolutamente
contrário ao que desempenha dentro de casa.
"Eu não podia escutar um conselho, falar com ninguém, perguntar
alguma coisa... eles (meu pai e minha mãe) ficavam na minha cola, não
saiam de perto de mim, eu não podia fazer nada sem eles a não ser
ir para a escola" (Gabriela, Brasil, 2000).
Foi justamente na escola que Gabriela encontrou o que estava buscando para
sair da situação de violência em que vivia. Ela foi abusada
sexualmente pelo pai desde os sete anos de idade. Na escola, conheceu alguém
em quem pode confiar e então, com 13 anos, pediu ajuda e foi encaminhada
para uma maternidade de referência para vítimas de violência
sexual. De lá ela foi ao conselho tutelar e à delegacia. Gabriela
teve o apoio necessário para sair de casa e disse que isso representava
o maior sonho de sua vida. Um sonho que ela não queria que acabasse
nunca. Porém, para seguir adiante e retomar seus projetos de vida, havia
necessidade de uma articulação forte entre os setores de saúde,
justiça, segurança e essencialmente com as instituições
de assistência social. Gabriela precisava de suporte para desenvolver
os seus projetos: estudar e realizar as atividades pertinentes a uma garota
de sua idade. Na cidade onde morava, como em quase todas as cidades do Brasil,
ainda não há integração dos serviços existentes,
o que prejudica a qualidade do atendimento e reduz as chances das pessoas terem
seus direitos básicos assegurados: integridade corporal, alimentação,
moradia, educação, saúde.
Em algumas cidades brasileiras estão sendo criadas redes de atendimento
a vitimas de violência, são exemplos: Porto Alegre, Belo Horizonte,
Florianópolis e São Luiz do Maranhão. Em cada local as
redes têm características próprias que dependem do processo
de criação e das instituições e pessoas envolvidas.
Texto:
Rhamas
ORGANIZANDO REDES LOCAIS
Este texto foi escrito com base no documento:
Redes Locales Frente a la Violencia Familiar - Série: Violencia Intrafamiliar
y Salud Publica. Documento de Análise nº 2. La Asociación
de Solidaridad para Países Emergentes (ASPEm) / OPAS, Perú, Junho
de 1999.
