A
Convenção de Belém do Pará (1994)
afirma que a "Violência contra a mulher é qualquer
ação ou conduta, baseada no gênero,
que cause morte, dano físico, sexual ou psicológico à mulher,
tanto no âmbito público como no privado".
Para compreender melhor esta definição é preciso
discutir o conceito de gênero e sua relação
com a violência.
Em primeiro lugar é importante distinguir a diferença entre sexo
e gênero. Cada ser humano nasce com um sexo geneticamente definido, o gênero
porém, não faz parte de seu capital genético e sim de sua
bagagem sócio-cultural, política e histórica (pessoal e
coletiva).
O sexo é uma condição biológica, que diz respeito
aos caracteres biofísicos e é marca de uma diferença entre
os seres humanos. Ao nascer, salvo condições especiais, o sexo é claramente
definido pela evidência dos caracteres sexuais primários. No sexo
feminino: vulva, pequenos e grandes lábios e clitóris, e no masculino:
testículos e pênis. Na adolescência aparecerão os caracteres
sexuais secundários: mamas, pelos pubianos e axilares, a primeira menstruação,
mudanças no contorno do corpo das meninas; e nos meninos, além
dos pelos, surge a barba, a voz torna-se grave e acontece a primeira ejaculação.
Ser homem ou ser mulher e agir de acordo com o que as pessoas em sociedade acreditam
ser natural do homem e próprio da mulher, pouco ou nada tem a ver com
essa natureza biológica e a fisiologia de cada corpo. Mas é sobre
esse corpo - com um sexo definido biologicamente - que são fixados os
atributos do gênero. Atributos construídos socialmente, variando
no tempo e culturas, mas de tal forma articulados que são percebidos como
parte da natureza de cada um.
Em função desses vínculos tão fortemente arraigados,
quando se pergunta a um indivíduo ou grupo de pessoas (experiência
explorada em oficinas por grupos feministas): o que caracteriza um homem ou uma
mulher? As coisas se passam mais ou menos assim: os homens são mais decididos,
menos emotivos, mais ousados, têm mais coragem de enfrentar o perigo, têm
mais liderança, são mais agressivos, competitivos, e por aí vai. É traçado
um perfil oposto ao perfil feminino: as mulheres são emotivas, sensíveis,
são mais organizadas, mais atenciosas, mais dedicadas ao trabalho, etc
Os homens são leais, as mulheres são fiéis. Os homens não
seguram o desejo sexual, as mulheres são mais reprimidas. As mulheres
são mais habilidosas. Claro que este é um perfil estereotipado
do que é ser homem ou mulher e as pessoas dão-se conta disso quando
questionadas. Mas, em geral, esses conceitos dão sustentação
a contratos de trabalho, sociais e afetivos. Percebidos como mais fortes, decididos
e mais capazes, aos homens são atribuídos os papéis de chefe
de família, cabeça do casal, etc. Os seus desejos e vontades passam
a ser a lei e essa lei é pra valer. Ainda que a força física,
a ameaça psicológica e a imposição pelo medo sejam
os instrumentos de convencimento.
Enfim,
do que trata o gênero?
O Gênero começou a ser usado mais seriamente pelas feministas
na segunda metade do século passado, como uma maneira de referir-se à organização
social das relações entre os sexos. Para fugir do determinismo
biológico: sexo é destino e para demonstrar o caráter
social das distinções estabelecidas entre os sexos.
O gênero foi um termo proposto também para reescrever a história,
revisitando a posição da mulher na sociedade, inserindo novos
temas nos estudos e pesquisas, modificando premissas e conceitos, atribuindo
importância não só às atividades públicas
como à experiência pessoal e subjetiva.
A historiadora Joan Scott (1) propõe o Gênero como categoria de
análise histórica. Ela conceitua o gênero como elemento
constitutivo das relações sociais, baseado nas diferenças
percebidas entre os sexos e como uma forma primeira de significar as relações
de poder. Para ela, o Gênero é composto de 4 elementos que funcionam
de maneira articulada, mas não obrigatoriamente ao mesmo tempo:
1º - Os símbolos - culturalmente disponíveis; de representações
múltiplas, por vezes contraditórias. São exemplos: Maria,
símbolo de pureza, que engravidou e pariu sem perder a virgindade e
Maria Madalena e Eva, pecadoras, imagens da sedução e do pecado.
2º - Os conceitos normativos - que são expressos nas doutrinas
religiosas, educativas, científicas, políticas, jurídicas,
e colocam em evidência as interpretações limitantes dos
símbolos e suas contradições. Em geral, eles são
veiculados como oposição binária (inocente-pecador; puro-impuro;
forte-delicado) e definindo de forma categórica o sentido do masculino
e do feminino.
3º - As instituições e organizações sociais
- família, mercado de trabalho, sistema político, sistema educacional,
sistema de saúde, que divulgam, reafirmam os conceitos e organizam-se
sobre esta base.
4º - A identidade subjetiva - vinculada ao indivíduo, a construção
do sujeito, que define sua forma de reagir ao que lhe é apresentado
como "destino" e sobre essas possibilidades pouco se pode dizer.
A articulação desses elementos vai compondo identidades, papéis,
crenças, valores, relações de poder. Mas, a história
descreve esses processos como se estas posições normativas fossem
produtos de consensos e não de um conflito na sociedade. Na realidade,
na vida vivida do dia a dia, em qualquer rincão, as coisas não
se passam bem assim.
Ao nascer, cada criança está inserida numa cultura que, de certa
maneira, já determinou os limites de sua existência, restringindo
sua liberdade de expressão. A criança vai tentar atender as expectativas
da família e da comunidade em relação ao seu desempenho
profissional, pessoal e até sexual. Mas em que lugar ficará escondido
o seu desejo? Qual o roteiro que ela quer pra si? Ser bem aceita, agindo dentro
dos padrões? Ou buscando a ruptura e enfrentando situações
e reações, por vezes, dramáticas? A crítica virá de
fora, mas com freqüência romper com essas estruturas e não
atender expectativas é motivo de culpa, sofrimento e adoecimento para
muitas pessoas.
Esta ordem social de gênero estrutura-se principalmente em torno de 4
eixos: a sexualidade, a reprodução humana, a divisão sexual
do trabalho, o espaço público e o privado. Alguns casos serão
relatados aqui, sumariamente, como ilustração das incoerências
contidas num modelo de gênero produtor de desigualdades, injustiças
e violência.
Caso 1
Uma babá inglesa, Louise Woodward, foi a julgamento pelo assassinato
do bebê Matthew Eappen. A mãe - médica - foi acusada de
ser responsável pelo crime, porque preferiu trabalhar três dias
por semana como oftalmologista. Alegava-se que o marido ganhava dinheiro suficiente
como médico e ela não precisava trabalhar e deixar o filho com
outra pessoa. Manifestantes ligavam para programas de rádio para dizer
que a babá não tinha culpa, que a culpa era da mãe, que
ela bem merecia ter perdido o bebê. Eles criaram um site para destilar
o seu ódio contra ela. Ao invés de consolo esta senhora recebeu
o escárnio. O marido não foi criticado em nenhum momento por
trabalhar fora de casa em turno integral. Tratava-se apenas do Pai. Por isso,
ele pode sair em defesa de sua mulher que não tinha condições
de defender-se e sofria profundamente a perda do filho. (2)
A maternidade é função da mulher. Mas... embora seja vista
como a principal, senão a única forma de realização
para o sexo feminino, quando as mulheres consideradas símbolos sexuais
engravidam, são profundamente questionadas na sociedade sobre sua capacidade
de assumir a maternidade, e de serem boas mães. Segundo professa uma
das mais importantes instituições sociais no ocidente - a Igreja
Católica, a maternidade deve andar distante da sexualidade e o sexo,
submetido à procriação. O espaço doméstico é o
lugar preferencial da mulher. Mulheres bem sucedidas profissionalmente são
vistas como mães ausentes. O espaço público é reservado
ao homem, provedor. Quando mãe e pai trabalham fora, em caso de acidentes
domésticos com os filhos a responsabilidade e as críticas recaem
pesadamente sobre a mulher.
As instituições reforçam os papéis tradicionalmente
atribuídos às mulheres e homens. Especialmente os serviços
sociais - setor de educação e saúde estão organizados
sem levar em consideração os horários vigentes no mercado
formal de trabalho. As aulas começam no mesmo horário que os
pais precisam estar no emprego. As consultas são oferecidas no horário
comercial. Supõe-se que as crianças e pessoas doentes terão
alguém disponível para conduzi-las e este alguém é certamente
uma mulher. Os homens não são bem aceitos nesse papel.
Caso 2
Um aluno do 5º ano medicina, pediu ao professor de farmacologia para fazer
prova em segunda chamada porque precisava levar seu filho ao médico.
O professor, recusou o pedido e grosseiramente lhe perguntou: _essa criança
não tem mãe? (Brasil, 1979)
Este professor sequer levou em conta que, por ser um estudante do quinto ano
de medicina, o pai poderia estar mais habilitado para explicar a doença,
compreender as orientações e acompanhar o tratamento do filho.
Há estudos demonstrando que na implantação de políticas
especiais, como atendimento domiciliar a pessoas com doenças crônicas
e necessidades de cuidados intensivos, as mulheres das famílias ou voluntárias
são as primeiras a serem convidadas para assumir as tarefas, para quem
são dados os primeiros treinamentos, como se elas tivessem uma vocação
nata para a enfermagem e o serviço social (3). E certamente não é à toa
que, mais de 90% das pessoas que desempenham essas funções são
mulheres.
No setor saúde, só muito recentemente os homens estão
sendo admitidos como acompanhantes e isso, provavelmente, se baseia na concepção
de que a mulher é responsável por esta tarefa e tem os atributos
para desempenhá-la melhor. Por outro lado, a demanda de saúde
dos homens não tem sido considerada, senão quando eles estão
em situações limite, de vida-morte, nas emergências. Se
o homem não pode chorar, também não pode adoecer nem reclamar
por pouca coisa.
A identidade definida pelo gênero-vinculado-ao-sexo não responde
as necessidades individuais. Cada sujeito é uno, tem sua própria
história, desejos e expectativas. O sexo não pode definir a identidade,
tampouco a orientação sexual de cada pessoa.
Caso 3
Uma senhora de oitenta anos foi presa numa cidade do interior do nordeste,
sob acusação de falsidade ideológica. Motivo: o marido,
ao ser hospitalizado, no momento de sua morte, foi dado como mulher porque
ele tinha uma genitália feminina. O senhor em questão, casou
com uma mulher, viveram juntos 50 anos, adotaram filhos, curtiram netos e tinham
o respeito da sociedade. A senhora, ao ser interrogada afirmou desconhecer
o fato. O que hoje pode ser surpreendente, um parceiro desconhecer o corpo
do outro, há décadas atrás era fato normal. Porém,
pode-se perguntar se ele escondeu o próprio corpo porque queria ser
aceito como homem. Este homem foi criado como menino, apesar do sexo feminino,
para agradar um pai que desejava um filho homem? A prisão desta senhora
deixou a cidade indignada. Qual o dano que a conduta deste casal trouxe à sociedade?
Qual o crime cometido por este senhor, senão aceitar e viver a sua identidade
subjetiva masculina, que o seu sexo - por ser feminino - lhe negava?
Fugir das regras sociais estabelecidas tem um preço e o sistema de repressão
está bem impregnado na sociedade como um todo. A discriminação
e intolerância contra os homossexuais e lésbicas é uma
das maiores evidências do grau de rigidez que os modelos hegemônicos
carregam.
Caso 4
No filme: Meninos Não Choram (Oscar de melhor atriz, 2000), baseado
numa história verídica do início dos anos 90, nos Estados
Unidos, mostra-se a experiência de uma moça que sente uma forte
atração por mulheres. Ela se percebe como rapaz, muda de cidade
e falsifica a carteira de identidade para viver como homem, numa região
onde homossexuais são muito discriminados e perseguidos. Ela passa a
fazer parte de um grupo de jovens. Apaixona-se por uma moça e é correspondida.
O fato é descoberto. Ela é estuprada e assassinada por dois colegas
do grupo.
Descontentes com o modelo que consideravam justo demais, as mulheres empreenderam
grandes mudanças e vêm expandindo as fronteiras de sua participação
no mundo, mas ainda não ficaram livres da sobrecarga de trabalho doméstico,
da criação dos filhos ou das exigências sociais em torno
da constituição de família e da maternidade.
Embora considerando diferenças regionais, grau de escolaridade, condição
financeira, os homens, por sua vez, ainda respondem, ou buscam atender o apelo
dos papéis de provedores, de chefes de família e ocupam posição
de maior valor em relação às companheiras. Eles sentem-se
humilhados se perdem, ainda que momentaneamente essa posição
e as conseqüências podem ser dramáticas. Alguns agridem a
mulher, outros...
Caso 5
Correio Brasiliense (2000): Morre um desempregado. O jornal registra a sua
história: angustiado por não conseguir emprego, depois de dizer à mulher
que não suportava lhe dar despesas, um homem, como qualquer outro, atirou-se
na frente dos carros que passavam numa avenida de grande movimento. Ele não
atendeu os apelos de sua companheira e foi atropelado por uma carreta. Há seis
meses procurava emprego. Naquela tarde, marcou de encontrar-se com a mulher,
empregada doméstica, e seguirem juntos para casa. Ela percebeu sua expressão
de tristeza, procurou consolá-lo, mas não conseguiu. Quem poderá imaginar
uma mulher, cometendo suicídio por estar desempregada e ser sustentada
pelo marido?
A proposição de modelos pouco flexíveis engessa o desenvolvimento
pessoal, profissional, material, espiritual, emocional de homens e mulheres.
Deste modo, a sociedade é, ao mesmo tempo, autora e vítima do "gênero" que
ela própria constrói.
VIOLÊNCIA
DE GÊNERO E SAÚDE DA MULHER
Bibliografia
1) Scott, Joan. Gênero: Uma Categoria Útil para a Análise
Histórica. Tradução: SOS CORPO. Recife-PE. 1989 .
2) Forna, Aminatta. Mãe de todos os mitos: como a sociedade modela e
reprime as mães. Tradução: de Ângela Lobo de Andrade
- Rio de Janeiro: Ediouro,1999
3) Romito, P., Hovelaque, F. Travail de Femmes et Santè, in Nouvelles
Questions Feministes, Nº 13, France: Printemps, 1986