A
violência é um termo de múltiplos
significados, e vem sendo utilizado para nomear desde
as formas mais cruéis de tortura até as
formas mais sutis da violência que têm
lugar no cotidiano da vida social, na família,
nas empresas ou em instituições públicas,
entre outras. Alguns pesquisadores propõem definições
abrangentes da violência que levem em conta o
contexto social, a distribuição desigual
de bens e informações. Para compreender
a violência deve-se levar em consideração
as condições sociais geradoras de violência
- sociais, políticas, econômicas e não
apenas os episódios agudos, como a violência
física explícita. Distingue-se nesse
campo de estudo, a delinqüência (ferimentos,
assassinatos e mortes), a violência estrutural
do Estado e das instituições que reproduzem
as condições geradoras de violência
e a resistência às condições
de desigualdade.
Outros autores chamam atenção ao fato de que a preocupação
com o problema da violência é recente na história, o que
estaria relacionado à modernidade e seus valores de liberdade e felicidade,
consolidados na concepção de cidadania e dos direitos humanos (1).
Com base nesses valores, determinadas práticas passam a serem vistas como
formas de violência.
A partir da atuação do movimento de mulheres, comportamentos considerados "naturais" passaram
a ser classificados como violência - impedir a mulher de trabalhar fora
de casa, negar-lhe a possibilidade de sair só ou de ter amigas, impedi-la
de escolher o tipo de roupa que deseja usar, impedir sua participação
em atividades sociais, agressões domésticas de pequena monta ou
desqualificação e humilhações privadas ou em público,
as relações sexuais forçadas dentro do casamento. A violência
contra a mulher é uma expressão abrangente, incluindo diferentes
formas de agressão à integridade corporal, psicológica e
sexual. Fatos mais graves também foram duramente criticados pelas organizações
feministas. No Brasil, um marco na história do movimento foi a exigência
do fim da impunidade aos criminosos que agiam "em nome da honra". A
legítima defesa da honra foi um argumento bastante utilizado por advogados
que não hesitavam em denegrir a imagem das mulheres assassinadas, para
garantir a absolvição de seus clientes. Invertendo os valores da
justiça, as vítimas eram acusadas de sedução, infidelidade,
luxúria, levando o homem ao desequilíbrio emocional e à atitude
extrema do homicídio.
No pólo oposto a situação enfrentada pelos homens, que na
grande maioria das vezes, são agredidos por pessoas estranhas e no espaço
público, a violência contra a mulher ocorre principalmente no espaço
doméstico, e é cometida por parceiros, ou outras pessoas com quem
as vítimas mantêm relações afetivas ou íntimas,
incluindo filhos, sogros, primos e outros parentes. Ela está profundamente
arraigada nos hábitos, costumes e comportamentos sócio-culturais.
De tal forma que, as próprias mulheres encontram dificuldade de romper
com situações de violência, e entre outras coisas, por acreditarem
que seus companheiros têm direito de puni-las, se acham que elas fizeram
algo errado ou infringiram as normas que eles determinaram.
A violência afeta mulheres de todas as idades, raças e classes sociais
e tem graves repercussões sociais. Agravos à saúde física
e mental, dificuldades no emprego, na aprendizagem, riscos de prostituição,
uso de drogas e outros comportamentos de risco. Segundo diversos estudos, com
populações de várias partes do mundo, e em diferentes culturas,
um grande número de mulheres relata que já foi agredida física,
psicológica ou sexualmente, pelo menos uma vez na vida.
Nesse contexto destaca-se a violência sexual, apontada por pesquisadores
como uma das principais formas de agressão, que predomina sobre as outras.
Embora se classifique a violência em tipos distintos, as diferentes formas
de agressão nunca aparecem isoladas. As mulheres estupradas, ou as meninas
submetidas ao abuso sexual, em geral são espancadas e sofrem ameaças
de toda sorte. Sob o domínio do medo, elas não denunciam, não
procuram ajuda, se fecham em si mesmas e sofrem caladas até que um fato
como a gravidez venha revelar a situação. A violência física,
no mínimo é acompanhada da violência psicológica.
Essa diferenciação faz sentido apenas na discussão da abordagem,
para que se possa compreender melhor a necessidade que a vítima apresenta
ao buscar ajuda. Em qualquer situação, porém, é o
olhar sobre o problema deve ser o mais amplo possível, para que a mulher,
criança ou adolescente agredida, seja vista e acompanhada na sua integralidade.
Nas últimas décadas, por força das militantes feministas
e provavelmente pela constatação das perdas sociais e econômicas,
a violência contra a mulher foi incluída na agenda política
dos governos e nos acordos internacionais.
A Convenção de Belém do Pará (1994), define "a
violência contra a mulher constitui uma violação aos direitos
humanos e às liberdades fundamentais e limita total ou parcialmente à mulher
o reconhecimento, gozo e exercício de tais direitos e liberdades".
(...) "violência contra a mulher é qualquer ação
ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano físico, sexual
ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como
no privado" (2).
"Quem de nós poderia dizer que jamais se deparou com uma situação
de violência, durante toda a vida pelo fato de ser mulher? Quem nunca ouviu
comentários ofensivos na rua, num ônibus ou espaço público?
Ou nunca foi assediada no trabalho por alguém que se deu a liberdade de
avançar sexualmente sem ter sido convidado? A violência pode ocorrer
de maneira sub-reptícia, dissimulada, mas mesmo em suas formas leves ela
se baseia na dominação de um gênero sobre outro" (3).
-
Violência e Direitos Humanos
- Depoimentos e Histórias
Bibliografia
consultada:
(1)
Schraiber, L.B., D'Oliveira, A. F.L.P. Violência
contra mulheres: Interfaces com a Saúde. Interface,
Comunicação,Educação, vol
3, n. 5, 1999
(2) CEPIA. Traduzindo a legislação com a perspectiva de Gênero
n. 1. Instrumentos Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos.
Rio de Janeiro, 1999.
(3) The Right To Live Without Violence. Woman´s Proposals And Actions.
Women´s Health Colection / 1 - Latin American And Caribbean Women´S
Health Network - 1996)