Taxista
sai de casa dizendo à mulher que "vou fazer
uma besteira".
Pouco depois, acaba com a vida da moça que assediava há seis
meses, sem sucesso.
"Esse cara não é um ser humano" diz, entre lágrimas,
uma colega de Patrícia, a jovem assassinada.
(Correio Brasiliense - 12/01/01)
O
ato violento desperta freqüentemente espanto.
A condição de humanidade ou a saúde
mental do agressor quase sempre são questionadas,
especialmente quando a violência atinge limites
que o cidadão comum, ou mesmo especialistas,
não imaginam, senão com muita dificuldade.
Neste patamar a violência é reconhecida
facilmente, ainda que, não raro, procure-se
no comportamento da vítima, razões que
justifiquem ou expliquem a agressão sofrida.
Já a violência cotidiana, de pequena monta ou mesmo de maior gravidade,
quando praticada sem deixar marcas evidentes, passa desapercebida socialmente,
ou, em muitos casos, é tolerada para não desestabilizar estruturas
que "supostamente" formam as bases da sociedade. No interior das
famílias, por exemplo, a violência nem sempre é reconhecida,
mesmo pelas pessoas que a ela estão submetidas, sendo, com freqüência,
considerada fato normal da vida de marido e mulher ou do processo de socialização
ou educação das crianças.
O ato violento não reconhecido como tal, ou praticado em meio ao silêncio
da cumplicidade e sob o domínio do medo, fragiliza as pessoas agredidas,
impedindo-as ou dificultando-lhes a busca de ajuda para romper o ciclo de violência
em que estão envolvidas.
A violência não é condição particular das
relações afetivas que se estabelecem exclusivamente no espaço
privado. Também nas empresas, nas instituições públicas,
ela se faz presente no cotidiano de relações interprofissionais
e interpessoais. Usuárias dos serviços públicos de saúde
e segurança (para ficar no âmbito das instituições
que tratam das pessoas em situação de violência) reclamam
do atendimento desumano, da brutalidade com que se realizam determinados procedimentos
e da forma como alguns funcionários e profissionais se dirigem à clientela
e suas famílias. Esta rede de serviços não apresenta um
padrão de qualidade homogêneo no acolhimento ao público.
A delicadeza, o respeito e as agressões estão presentes em todos
os locais, com matizes de cores variadas. Aí dentro cada pessoa percorre
circuitos absolutamente distintos, que estão sob influência de
fatores como o cansaço dos funcionários por muitas horas trabalhadas
em situação precária, até o preconceito ou discriminação
frente a questões que envolvem polêmicas morais ou religiosas.
Assim, enquanto alguns cidadãos são plenamente atendidos outros
podem ser profundamente desrespeitados, em unidades diferentes ou num mesmo
serviço, por membros de uma mesma equipe.
Sendo praticados no âmbito das relações profissionais ou
afetivas e intimas, os atos violentos apresentam características comuns:
relação de poder desigual entre os sujeitos envolvidos; imposição
e força; medo, submissão e privação da liberdade,
momentâneos ou duradouros.
A violência é portanto a ação de um sujeito que,
ao subjugar um outro, seja pela força física, pelo assédio
moral ou sexual, obriga-o a fazer algo que por sua livre escolha não
faria. Ação de quem se julga - por um momento, ou indefinidamente
- no direito de impor a sua vontade ou desejo a outra pessoa, tendo ou não
consciência plena desse julgamento. A violência é, também
um ato desprovido de humanidade, pois ao impor a um terceiro a condição
de objeto, o sujeito desta ação também se desumaniza ...
e como a colega de Patrícia, dele podemos dizer: "ESSE CARA NÃO É UM
SER HUMANO"
PARA SER HUMANO é preciso tornar-se humano. Obra para sempre incompleta,
humanizar-se é eterno um vir a ser, que exige atualização
a cada instante em que se age e a cada relação que se estabelece
em sociedade. O processo de humanização é uma via de mão
dupla. Nos tornamos humanos quando agimos humanamente em relação
aos nossos interlocutores. Para agir humanamente é preciso admitir que,
apesar das diferenças existentes entre os indivíduos, existe
algo em comum, fundamentalmente igual entre as pessoas, quer se trate de brancos,
negros, velhos, jovens, sábios, ignorantes, ricos, pobres, mulheres
ou homens. É imprescindível poder colocar-se no lugar do outro,
adotando por um momento, o seu modo de ver as coisas, seu ponto de vista, seu
lugar ou sua posição. A humanização como processo
relacional, baseia-se na capacidade dos indivíduos - que se adquire,
desenvolve e aprimora - de compartilhar os sentimentos dos semelhantes, sendo
capaz de perceber o sofrimento, compadecer-se, buscar minorá-lo e evitá-lo
se for possível.
Pode-se compartilhar sentimentos e emoções oriundos da alegria
ou da tristeza. Compadecer-se é identificar-se com o sofrimento do outro.
Simpatizar também é sentir junto, ou do mesmo modo, um pelo outro,
porém, a simpatia promove um encontro feliz entre dois indivíduos,
e a compaixão promove o encontro na tristeza, no sofrimento. Simpatia
e compaixão têm o mesmo significado, embora não tenham
a mesma aceitação na sociedade. Apesar do preconceito contra
a compaixão, é ela que possibilita o acesso à condição
humana, posto que seu contrário é a indiferença, a frieza,
a insensibilidade, a secura de coração, a dureza e a crueldade.
No momento em que agride, ao agressor não interessa os apelos de sua
vítima, tem enjôo de seus lamentos, que lhe parecem uma provocação.
O que parece verdade pois, quando a vítima pede compaixão, ela
tenta resgatar no agressor a consciência do que ele está fazendo.
Apela para seus sentimentos de filho, irmão, marido... Mas ele não
lhe reconhece como igual, não imagina (ou não se importa) que
algo semelhante aconteça aos seus, não é capaz de compartilhar
o sofrimento, de ter compaixão. Tratando a vítima como objeto,
negando-se a reconhecer sua dor, impondo-lhe uma situação contrária
ao seu desejo, obrigando-lhe a fazer o que não concorda, que moralmente
não aceita, o agressor avilta a liberdade da pessoa agredida e percorre
a trilha da violação dos direitos humanos.
- DEPOIMENTOS
Bibliografia
consultada:
§ Assédio Moral: A violência Perversa no Cotidiano / Marie-France
Hyrigoyen; tradução de Maria Helena Kuhner - Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2000.
§ Ética para Meu Filho / Fernando Savater; tradução
Monica Stahel - 2ªedição - São Paulo: Martins Fontes,
1996.
§ Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. André Comte - Sponville -
Tradução Eduardo Brandão - São Paulo, Editora Martins
Fontes, 1995.