O gênero
- construção social e histórica
- é determinante dos padrões de relacionamento
entre homens e mulheres, e assim, pode-se invocá-lo
como fator determinante do processo de adoecimento
e morte da população masculina e feminina.
As
causas externas, ou seja acidentes e violências,
estão entre
as principais causas de morte da população jovem masculina.
Embora sem esquecer outros fatores sociais, econômicos e políticos,
já existem
estudos demonstrando que os padrões de masculinidade - que valorizam
a agressividade, a competitividade e a negação das emoções
- levam os homens, desde a infância a adotarem comportamentos de maior
risco do que as mulheres. Eles dirigem em maior velocidade e com mais ousadia,
transformando-se nas principais vítimas das mortes por acidente de
trânsito.
A maior parte dos homicídios ocorre na população masculina.
E se é menor a freqüência de suicídio entre homens
do que entre mulheres, eles escolhem métodos mais agressivos e raramente
saem com vida de uma tentativa deste tipo.
Analisando-se
as estatísticas por mortes violentas percebe-se
que as mulheres correspondem a uma parcela significativamente
inferior à população
masculina. Não é portanto, em termos de mortalidade que a
violência
contra a mulher se expressa nas estatísticas de saúde-doença,
embora, deva-se ressaltar que entre os homicídios que atingem a
população
feminina, em torno de 70% a 80% os companheiros são os autores do
crime.
A
violência contra a mulher tem outra feição,
na maioria das vezes o episódio agudo e mais
grave da violência é o
fim de linha de uma situação crônica, insidiosa,
que aos poucos foi desmontando as defesas das vítimas até deixá-la
completamente à mercê do agressor, sem condições
até de pedir ajuda.
A violência nas relações de casal, nas relações
afetivas, íntimas, no interior das famílias, expressa dinâmicas
de afeto/poder, nas quais estão presentes relações de
subordinação e dominação. E no contexto atual,
na maioria das vezes, a mulher ainda está em posição desfavorável.
O
efeito da violência contra a mulher - o maltrato,
as humilhações,
as agressões físicas, sexuais e psicológicas - é devastador
sobre a auto-estima da mulher. O medo que elas sentem cotidianamente,
a insegurança
pois nunca sabem o que poderá desencadear a fúria do
agressor, a vergonha diante dos familiares e dos vizinhos, provoca
ansiedade, depressão,
dores de cabeça constantes. A violência nas relações
de casal, o abuso incestuoso, expõe a vítima às
doenças
sexualmente transmissíveis, à gravidez indesejada, aos
abortamentos em situação insegura e conseqüentemente
mortalidade por causa materna.
Com
freqüência é a violência física
e sexual na infância e na adolescência
que leva tantas meninas a permanecerem na rua, sendo
obrigadas a escolher entre a prostituição
e as drogas ou a violência dentro de sua própria
casa.
A
violência sexual, como fenômeno isolado
na vida de uma mulher, perpetrada por estranhos ou
conhecidos, também pode trazer conseqüências
extremamente graves, principalmente se a vítima não
tem uma boa auto-estima e uma estrutura psíquica que favoreça
a superação
do trauma. O sentimento de culpa por não ter conseguido
escapar, sentir-se punida por ter ido ou ter passado no local onde
foi agredida. O medo de reencontrar
o agressor, de passar por tudo de novo, é comum entre as
mulheres atendidas nos serviços de referência.
A gravidez pós-estupro, representa uma invasão "essa coisa
que cresce dentro do meu corpo" no dizer de uma delas, que não é vista
como filho, que é fruto da violência, relembra e reitera a agressão,
o sentimento de impotência e nojo em relação ao agressor.
Essa situação se agrava quando a mulher não encontra apoio
médico, psicossocial e da justiça para encaminhar as decisões
tomadas e que lhe são de direito.
"Que as coisas foram resolvidas, foram, mas que eu fiquei bem, não
fiquei não. Acho que aonde eu for, vou levar comigo a lembrança
daquele dia. Porque a pessoa pode entender mas nunca vai saber o que é passar
por um estupro" (Luzimar, Brasil, 2000).
Retomar
a vida amorosa, sexual, é um passo delicado.
Enfrentar o medo e as dificuldades de que foi estuprada,
ao marido ou ao namorado é causa
de muito constrangimento para as mulheres. A violência é causa
de sofrimento, adoecimento e morte e pode levar ao suicídio.
"Eu sempre pensava assim: se eu engravidar do meu pai eu me mato. Não
tenho coragem de fazer um aborto, mas não vou ter um filho dele (...)
Eu não sou contra a mulher que decide fazer o aborto por este motivo,
mas eu acho que eu me matava, acabava com tido logo de uma vez. Eu sempre quis
ter um filho, mas eu não ia ter um filho de meu próprio pai" (Lucimar,
Brasil, 2000)
A
tabela abaixo apresenta uma síntese dos efeitos
da violência
sobre a saúde da mulher.
VIOLÊNCIA
BASEADA NA DESIGUALDADE DAS RELAÇÕES
DE GÊNERO E CONSEQUÊNCIAS PARA A SAÚDE
DA MULHER (*)
CONSEQUÊNCIAS
PARA A SAÚDE FÍSICA
· Doenças sexualmente transmissíveis
· Ferimentos, escoriações, hematomas, ferimentos, fraturas
recorrentes
· Problemas ginecológicos, corrimentos, infecções,
dor pélvica crônica
· Doença Inflamatória pélvica
· Gravidez indesejada, abortamento espontâneo
· Asma, Síndrome do colo irritável
· Maior exposição a comportamentos danosos á saúde:
sexo inseguro, abuso de álcool e drogas, prostituição, fumo
· Incapacidade física parcial ou permanente
CONSEQUÊNCIAS
PARA A SAÚDE MENTAL
· Estresse pós-traumático
· Depressão; Ansiedade
· Disfunção sexual
· Desordens alimentares
· Comportamentos obsessivo-compulsivos
CONSEQUÊNCIAS
FATAIS· Suicídio - Homicídios
Medir
a magnitude dos efeitos da violência sobre a
saúde da mulher é uma tarefa difícil.
Mulheres que vivem em situação de violência,
em geral, procuram um serviço de saúde
pelos sintomas que apresentam. Nem sempre elas associam
o que sentem as agressões sofridas. O serviço
de saúde é percebido como um lugar a
ser buscado para tratamentos de doenças, como
chegar até lá para conversar sobre a
situação conjugal? Que profissional está habilitado
para atender essa demanda: médica(o), enfermeira(o),
assistente social? Mesmo as psicólogas, e psiquiatras,
primeiros a serem procurados pelos colegas para que
recebam as vítimas de violência doméstica
ou sexual, não receberam uma formação
especifica para tratar desse tipo de problema, e também
necessitam de uma formação especializada,
pois a violência não pode ficar restrita
ao campo da saúde mental da vítima.
A
maior parte dos profissionais de saúde não
foi treinada para decodificar as queixas que podem
estar associadas à violência,
e quando conseguem estabelecer este vínculo ou levantar esta hipótese,
sentem dificuldade em abordar a situação com a clientela. Como
introduzir o assunto sem constranger a mulher? Como perguntar de uma maneira
que ela possa sentir-se à vontade para falar? Quais os termos a serem
utilizados? E o que fazer se a mulher resolver falar?
A
formação do pessoal de saúde,
especialmente da área
médica, está dirigida para diagnosticar e tratar, na expectativa,
de que a cura esteja relacionada com a sua capacidade de identificar o
problema e prescrever o melhor tratamento. Ainda não é suficientemente
valorizado o papel que a clientela pode desempenhar na resolução
de seus problemas de saúde. No caso da violência, as decisões
ou encaminhamentos a serem realizados pela equipe, se não forem
compartilhadas, bastante discutidas com a mulher poderão agravar
o problema ou não
ajuda-la a tomar a melhor decisão.
"Recebemos uma mulher com a filha de 11 anos, que tinha sido abusada sexualmente
pelo avô. A mãe trabalhava fora e as meninas ficavam em casa depois
da aula, sem a sua companhia. A mãe estava profundamente abalada: queria
proteger as meninas, e sabia que o pai agira errado. Ao mesmo tempo não
sentia coragem para denunciar o próprio pai, já velho e doente.
Ela tomou providências para que as meninas não sofressem uma nova
agressão, mas precisou ser acompanhada pela equipe de psicologia do serviço
de referência durante um mês, até sentir-se fortalecida para
poder denunciar o pai e poder afastá-lo de sua casa". (Relato do
médico responsável pelo serviço, em reunião sobre
violência sexual, Natal/RN. Brasil. 2000).
Esta
equipe estava ciente da obrigatoriedade de denunciar
os casos de violência
contra crianças e adolescentes, mas teve sensibilidade para
aguardar um mês, tempo necessário para a mulher elaborar
o problema que estava vivendo e tomar uma decisão sem sentimentos
de culpa.
Frente a situações desse tipo ou até mais graves, o desejo
de que a situação se resolva logo, ou a dificuldade de compreender
os diferentes fatores que podem levar uma mulher a permanecer numa relação
violenta - se a equipe não está bem preparada para acompanhar
- pode gerar uma grande insatisfação e reforçar o preconceito
social contra a vítima, percebida muitas vezes como uma mulher que gosta
de apanhar, que está ali porque quer.
A
linguagem dos sintomas e diagnósticos não
abarca o universo multifatorial da violência.
Desta forma, para que o setor saúde
incorpore a violência doméstica e sexual como questão
de saúde pública, é necessário que todos
os envolvidos encarem o desafio de recriar a linguagem da saúde,
redimensionando o espaço da doença e das em pessoas,
que vivem cada uma a sua história,
em diferentes contextos, com diferentes necessidades, porém
com iguais direitos de opinar sobre a forma como querem ser tratadas
e ajudadas na resolução
de seus problemas.
No
caso de crianças e adolescentes a situação é diferente
e a vinculação dos serviços aos órgãos
de proteção e defesa dos direitos é condição
obrigatória para o acompanhamento adequado de cada caso.
Bibliografia
consultada
· (*) Heise, L., Pitanguy, J., Germain, A., Violence Against Women. Washington,
D.C, The World Bank, 1994.
· Schraiber, L.B., D'Oliveira, A. F.L.P. Violência contra mulheres:
Interfaces com a Saúde. Interface, Comunicação,Educação,
vol 3, n. 5, 1999
· Sabo, Don. Compreender la Salud de los Hombres. Un enfoque sensible
al género. Publicación Ocasional nº 4 Género, Equidad,
Salud. Organización Panamericana de la Salud; Harvard Center for population
and Development Studies. 2000